terça-feira, 14 de outubro de 2008

A catarse na comédia por Cleise Furtado Mendes.

A Gargalhada de Ulisses
Editora Perspectiva – Coleção Estudos

Nesse livro, a dramaturga Cleise Mendes aborda as estratégias utilizadas pelos comediógrafos para captar o interesse e a cumplicidade do seu público, tendo como ponto de partida a experiência da catarse propiciada pelo riso. Como as formas e procedimentos da dramaturgia para atingir o efeito cômico variam em cada época e lugar, a autora examina um amplo e variado painel de realizações do gênero, da antiga comédia grega, marcada pela sátira política, até o polêmico teatro besteirol, que invadiu os palcos brasileiros nos anos 80. Essa abordagem, porém, é feita de modo não linear, de modo a desvelar para o leitor as diferenças, mas também as aproximações, por vezes surpreendentes, entre autores e obras de distantes contextos históricos.
Avaliando a eficácia da comicidade, vista como construção artística destinada a provocar o riso, a autora identifica traços comuns que reaparecem em diferentes dramaturgias, seja a Comédia Nova latina, a comédia romanesca de Shakespeare, a comédia “cortesã” de Molière, as arlequinadas de Goldoni, a “alta comédia” de José de Alencar, a comédia popular de Martins Pena, Artur Azevedo e Ariano Suassuna, e até a comédia “sem riso” de Tchekov.
A Gargalhada de Ulisses traz uma perspectiva inovadora para o estudo da catarse na dramaturgia, ao enfocar esse fenômeno pela ótica da comédia. A abordagem tradicional do efeito catártico, seja no teatro ou na ficção em geral, é feita em relação à experiêmcia da tragédia, mantendo-se fiel à formulação de Aristóteles e ao efeito piedade-e-terror a ser despertado no publico. Para ampliar esse foco exclusivo da catarse, Cleise Mendes revisita criticamente as principais teorias da comicidade e do humor, trazendo nova luz sobre estudos já famosos, como os de Henri Bérgson, Sigmund Freud e Mikhail Bakhtin. Ao mesmo tempo, traz para a discussão do gênero cômico a contribuição de autores como Nietzsche, Charles Mauron e Baudelaire.
Questionando abordagens já tradicionais, esse estudo valoriza tanto os aspectos éticos quanto os componentes afetivos que estão presentes no circuito de produção e recepção da comédia. O pacto que introduz o espectador no jogo cênico depende de certas estratégias dramatúrgicas para celebrar um ritual de cumplicidade entre o comediógrafo e seu público. Mas a catarse, quando acontece, dá-se no embate sempre imprevisível com os desejos de cada platéia, em cada momento.
Pela amplitude das questões que levanta, pela importância dos autores e obras aí analisados, este é um livro destinado não só aos estudiosos do teatro e da dramaturgia, mas a todos os interessados nas questões da comicidade e do riso em diferentes contextos: na arte-educação, nas ciências humanas, na filosofia, na literatura, no cinema.

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